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sábado, 7 de janeiro de 2017

"Mamã, não tenhas medo das minhas birras!"

Já li vários texto sobre como evitar birras, como acabar com birras, como ter filhos que não fazem birras, e por aí fora!

E se começarmos por desmistificar o que é uma birra?

Uma birra não é uma manifestação de um tirano, que não teve aquilo que desejou e agora está a tentar manipular as pessoas que mais ama.

É apenas a expressão de uma emoção de um ser humano, num corpo pequenino, com um cérebro que está a crescer e ainda não desenvolveu todas as competências de gestão emocional ( só depois dos 20 anos é que isso acontece, e sejamos honestos... somos nós, adultos, um exemplo de gestão emocional saudável?).

O sono, a fome, a necessidade de contacto físico, a necessidade de brincar e de se movimentar, são razões para um bebé ou criança ter uma birra.

O desenvolvimento natural da autonomia e independência, quando não aceite pelos pais, também pode criar momentos de tensão.

Outro dia de manhã, a minha filha chorou porque queria comer as papas de aveia sozinha. Eu achei que ela ainda não conseguia, disse-lhe que não, que era eu e ela apontava para o prato. Eu escolhi deixar, mesmo pensando que ela ainda não sabia comer sozinha papas líquidas, sem deitar fora metade (que já tinha acontecido!). Ela comeu tudo, e quase não sujou a roupa e a cadeira. Pedi-lhe desculpa!

Agora, já aconteceu eles chorarem muito porque queriam fazer algo que colocava em risco a segurança deles. A única solução é dizer não e acolher o choro de frustração deles. Eles não têm noção que é perigoso, e o facto de nós explicarmos não elimina a frustração do sistema corpo/mente dos mais pequeninos. Eles precisam, e é saudável, libertar o que sentem. E o choro serve para isso.

Outro exemplo muito simples é quando uma criança cai e chora. "Pronto, já passou!", "Ups, anda levanta-te, já passou".

Pode não ter passado, e só a criança é que sabe quando passou. Se está a chorar, é porque ainda não passou para ela. Ela pode não estar a chorar porque algo no corpo está a doer, pode estar a chorar porque se assustou, porque teve medo, porque doeu, porque se irritou. Ela pode nem saber porque está a chorar! Não te apresses. Não apresses a tua criança. Deixa-a libertar o seu corpo da emoção que surgiu nesse momento.

Chorar faz bem!

Especialmente quando o choro é acolhido por um adulto que está presente, que não julga a criança por chorar, que não apressa o processo, que não uso métodos ou técnicas para controlar as birras.

Epah... eu já senti vergonha dos gritos da minha filha nas compras, já senti vergonha do meu filho se atirar para o chão a chorar. E observei a vergonha, respirei fundo, e dei atenção aos meus filhos. Eles estavam a precisar da minha atenção consciente, do meu amor, da minha presença.

E sempre que eles choram, eu acolho-os. O mundo pára. E sabes uma coisa? A birra passa. E eles ficam mais calmos.

Não tenhas medo das lágrimas. Elas curam. Elas regeneram. E eles assim não vão ter medo das próprias lágrimas e das lágrimas dos que estão à volta deles. Porque é seguro sentir. Porque não controlamos o que sentimos.


1 comentário:

  1. Muito bom!
    "E sempre que eles choram, eu acolho-os"... a não ser que sejam transportados pelo pai e eu precise demonstrar e validar-me como a "mamã consciente"... ooops
    "Chorar faz bem! Especialmente quando o choro é acolhido por um adulto que está presente, que não julga a criança por chorar, que não apressa o processo, que não uso métodos ou técnicas para controlar as birras." aquilo que o pai naturalmente estava a fazer... :-)
    yep a mente que se identifica e tem necessidade de se validar a si mesma como a "mamã consciente" é de facto muitíssimo paranóica... é abrir os olhos para ver :-)
    Adorei o texto, mas para passar das palavras aos actos com a naturalidade de simplesmente ser "é estar disponível para viver cada momento sem a carga do passado, sem a preocupação com o futuro, sem expectativas, sem uma agenda pré estabelecida!"É olhar para esse comportamento como se fosse a primeira vez que acontece, é estar curiosa para compreender, em vez de julgar... tendo antes a coragem de olhar o passado e curar as feridas que carregamos dentro, em vez de as tentar projectar inconscientemente sobre os outros... <3

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